Título: Visto do Céu (lido 959 vezes) (08-11-09) Autor do Artigo: Cláudia Silva Autor do Livro: Alice Sebold ![]() Data já de 2002 o romance de Alice Sebold, mas volta agora a ter algum destaque devido à adaptação cinematográfica de Peter Jackson, cuja estreia está prevista para Janeiro do próximo ano. “ The Lovely Bones”, ou “Visto do Céu”, na tradução portuguesa é o relato na primeira pessoa da história cruel de uma adolescente que foi brutalmente violada e assassinada. Narrado na primeira pessoa, o romance começa com a protagonista, Susie Salmon, já no céu, de onde observa a sua família, os seus amigos, bem como o seu raptor e assassino. Ela foi assassinada por um vizinho, quando tinha apenas catorze anos e vai-nos, ao longo do livro, mostrando o que é estar no seu lugar “ Quando entrei no céu, pensei que toda a gente via o mesmo que eu…”. Mais tarde, ela aperceber-se-á de que o céu é aquilo que ela verdadeiramente quiser que seja e que, por vezes, a versão de céu dos outros interfere e influencia a nossa própria. Aos poucos, ela vai-se habituando à sua nova vida, no céu, observa a sua família e amigos na Terra, controlando o desejo de vingança, numa tentativa de ajudar a sua família a recuperar do enorme desgosto e sofrimento pela sua perda, enquanto tenta lidar ela própria com a sua morte. O seu assassinato ocorreu no dia 6 de Dezembro de 1973, época em que ninguém acreditava que tal crueldade pusesse existir, altura em que ninguém acreditaria se lhes dissessem que anos mais tarde começariam a aparecer por toda a parte, rostos de crianças de todas as raças, procuradas por desaparecimento. Também os pais de Susie ao princípio pareciam incrédulos e não validavam a possibilidade de esta estar morta, acreditavam que estaria apenas desaparecida, lá fora, na chuva, e ia voltar a qualquer momento. No entanto, o leitor não entra nestas expectativas infundadas, pois sabe, da boca da própria Susie, todos os sórdidos detalhes da cruel verdade do seu desaparecimento. Esta atitude de esperança termina quando do Detective Len Fenerman os informa de que está colocada de parte a hipótese de desaparecimento e as novas pistas indiciam que Sussie esteja morta. Então, cada membro da família começa a desintegrar-se e a isolar-se no seu próprio mundo. A narrativa segue um ritmo quase cinematográfico, onde pequenas cenas perduram na nossa cabeça, como se nós também fizéssemos parte do processo de investigação e de apuramento da verdade, bem como do processo de “cura” e restabelecimento daquela família destroçada, como se ajudássemos a apanhar os pedacinhos dos seus corações partidos e, de novo, os uníssemos. Há, de facto, cenas inesquecíveis e tocantes, onde cada um se reaproxima do outro com passinhos pequenos e marcantes. A parte final é tão brilhantemente surpreendente como todo o resto. Susie partilha a sua solidão, ainda que mais pacífica do que antes. Na verdade, quando alguém morre, é quem fica vivo que se queixa da solidão, do vazio deixado por quem partiu, mas, e quem vai, como se sentirá? Não pensamos! Susie esclarece essa sensação de solidão, de vazio e, acima de tudo, a incapacidade de se fazer sentir, de amar os que estão na Terra “Percebi nesse momento que não iam saber quando eu desaparecesse, como nunca tinham sabido que eu pairara tão insistentemente em determinados sítios…”. É também neste momento que o leitor sente esta frustração: Susie não consegue ajudar a sua família a sarar, o tempo o fará; a família de Susie não voltará a poder protegê-la, o tempo encarregar-se-á de a encaminhar; e nós, leitores, nada podemos fazer para solucionar o que quer que seja desta história. É, sem dúvida, um relato forte e comovente que nos faz pensar. Este é o primeiro romance de Alice Sebold. No entanto, o seu primeiro livro “Lucky” é anterior, trata-se de um relato autobiográfico da sua própria violação por um colega da universidade. Foi distinguida, na altura, com um prémio de revelação. Este “Visto do Céu” atingiu, ainda em 2002, os 2,5 milhões de exemplares vendidos. |