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Livro do Mês

Título: Pelo bem comum (lido 351 vezes) (04-04-10)
Autor do Artigo: Cláudia Silva
Autor do Livro: Arundhati Roy

Depois da apaixonante saga familiar “O Deus das pequenas coisas”, primeiro romance de Arundhati Roy, a autora regressa com um ensaio, não menos apaixonante, baseado na história da Índia Moderna – “Pelo bem comum”.

Neste livrinho, de menos de uma centena de páginas, Arundhati Roy denuncia a construção de 3600 barragens classificadas como Grandes Barragens e a previsão da construção de mais 1000, sendo que, neste mesmo país, 200 milhões de pessoas não têm água potável e 600 milhões não dispõem de saneamento básico. Denuncia ainda os prejuízos incalculáveis do ponto de vista ecológico, a desertificação da terra, as cheias, a saturação, a salinização do terreno e a propagação de doenças.

No prefácio podem ler-se, desde logo, as motivações das preocupações da autora: “… a construção da polémica megabarragem de Sardar Sarovar, no rio Narmada (…) uma das 3200 barragens projectadas para um único rio.” Ou “ A Índia é o terceiro construtor mundial de barragens. (…) Todavia, não existem estatísticas oficiais sobre o número de pessoas desalojadas devido à construção de barragens. A Índia não tem sequer uma política nacional de reintegração.” Este prefácio termina com a metáfora explorada ao longo do ensaio: “ A história do vale do Narmada é a história da Índia Moderna.”

Do ponto de vista ecológico, o projecto é altamente condenado no ensaio. Na verdade, este projecto do vale de Narmada é visto como um potencial factor de alteração da ecologia de toda a bacia de um dos maiores rios da Índia. A autora explica como afectará a vida de 25 milhões de pessoas que vivem no vale.

A autora não descurou também os aspectos económicos, uma vez que entre 1993 a 1998, a Índia pagou ao banco mundial 1475 biliões de dólares de taxas de juro dos financiamentos.

Finalmente, Arundhati Roy partilha algumas amostras do autoritarismo e da prepotência daqueles que “mandam”: “Pedir-vos-emos que deixem as vossas casas quando a barragem subir. Se as deixardes, sereis bons. Senão, abriremos as águas e afogar-vos-eis.” (lê-se da transcrição de um discurso de Morarji Desai, numa sessão pública na zona a submergir pela barragem de Pong em 1961).

Em suma, uma enorme quantidade de flora e fauna em extinção e mais de 50 milhões de pessoas desalojadas e sem direito a indemnizações ou realojamentos (vivem agora em bairros da lata, nos limiares das grandes cidades, e tinham antes da construção das barragens as suas casas e a sua lavoura), num país onde mais de 350 milhões de pessoas vivem no limiar da pobreza.

As conclusões, ainda que cruéis, são fáceis e inevitáveis: “Para amansar um animal, destroem-se-lhe os membros. Para amansar uma nação, destrói-se o seu povo. Demonstra-se controlo absoluto sobre o seu destino. Prova-se-lhe em última análise, quem decide, quem vive, quem morre…”
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