Título: A Curva de Uma Vida (lido 181 vezes) (06-06-10) Autor do Artigo: Cláudia Silva Autor do Livro: Vergílio Ferreira ![]() Há quem discuta a legitimidade de publicar postumamente os mais variados documentos de um autor. No entanto, neste caso, se dúvidas houver, basta ler com atenção nas entrelinhas das publicações em vida de Vergílio Ferreira, para perceber a sua posição face ao tema: “…não há obra medíocre alguma de um autor que lhe destrua a obra superior. (…) De qualquer modo, se um artista não quer que se lhe conheça a obra, destrua-a ele.” (lê-se em Conta Corrente, o diário do autor) Acaba de sair, das edições Quetzal, a primeira “história” escrita por Vergílio Ferreira e que o seu Espólio entrega assim aos leitores, numa edição dupla: por um lado, o texto acompanhado de um aparato crítico; por outro lado, a novela vergiliana sem quaisquer anotações. Este inédito de Vergílio Ferreira, intitulado A Curva de Uma Vida data de 1938, sendo portanto, indubitavelmente, o primeiro livro do autor, já que só no ano seguinte viria a sair o romance que agora conhecemos como tal O Caminho Fica Longe. Trata-se de uma novela, portanto um texto mais curto. No entanto, os grandes temas do autor estão já bem demarcados nestas páginas: a procura incessante do eu, da identidade, a ausência da figura paterna, a morte… Nesta novela, o autor conta a história de uma personagem perdida na sua própria identidade, cuja descoberta de que não é quem pensa ser bem como a avaliação que, por isso, vem a fazer da mãe, o levam a adoptar um comportamento eticamente reprovável: a violação da irmã adolescente do seu melhor amigo de liceu, que entretanto se tornou advogado. Este é aliás o motivo de as suas vidas se voltarem a cruzar… Sobre as razões que terão levado à não-publicação desta primeira obra do escritor, o editor referiu que ele “nunca pôs de parte essa hipótese. O facto é que a guardou, a manteve revista e anotada e a salvo. Vergílio Ferreira disse várias vezes que se deve publicar tudo de um autor e nunca se desfez de nenhum dos seus textos, mesmo desses mais antigos, e é isso que nós (Quetzal) fazemos agora”, observou. “A Curva de Uma Vida” foi descoberta no espólio do escritor - distinguido com o Prémio Camões em 1992 - por uma equipa de investigadores e professores dirigida pelo professor Hélder Godinho, que está a estudá-lo, catalogá-lo e anotá-lo. Na opinião de Francisco José Viegas, “a publicação de ‘A Curva de Uma Vida’ nunca foi uma das suas prioridades, o que se compreende num autor que tinha escrito ‘Para Sempre’, ‘Na Tua Face’, ‘Até ao Fim’, ‘Aparição’ ou ‘Alegria Breve’, romances que estão na primeira linha do que foi a literatura portuguesa do século XX”. A Quetzal vai adiantando que se trata apenas de um aperitivo, pois está previsto já para o corrente mês de Junho “a grande, grande novidade” que a editora tem para anunciar: “existe um romance inédito”. Ficamos a aguardar. |